terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crônica de um cadáver anunciado


Aluno assassina professor e a culpa é do “sertanejo universitário”.
No litoral, surgiram nossos primeiros centros urbanos (Rio, Recife, Salvador), grandes cidades, e no interior, ficou o sertão. O que não era sertão, era seu oposto, civilização, homens vivendo, sob a observância de leis, com uma certa cortesia, sofisticação e polidez. E com o luxo de contar com padres, prefeitos, delegados, promotores, juízes, enfim, pessoas que tiveram o enorme privilégio de serem educadas numa: u-ni-ver-si-da-de!
No sertão, havia, quiçá, uma Idade Média, na qual os homens de boa índole que possuíam o instinto do direito natural e preservavam noções de ética e de valores civilizados viviam à mercê das oscilações de humor dos valentões. O raro homem que um pouco soubesse ler era tido como “doutor”, um sábio. Tal como no conto “Famigerado” de Guimarães Rosa, alguém, às vezes, percorria léguas à procura de quem soubesse o significado de “uma” palavra.
Logo, podemos ter um gênero artístico, seja musical ou não, chamado “sertanejo”, se seu conteúdo enfatiza uma abordagem ao universo do sertão (dramas, alegrias, angústias e aventuras do homem sertanejo), e se sua forma alude com maestria o falar desprovido de ornamentos tal qual o praticado por aqueles viventes. E isto já foi feito, há obras, neste gênero, que traduzem a alma desta gente singela, enaltecem suas raízes, crenças, costumes, valores e sentimentos. São obras que encontram eco na sensibilidade de pessoas de bom gosto, tornaram-se maravilhas imortalizadas pelo tempo e conservam a memória cultural de nossas origens. Do lado oposto, podemos ter outro gênero, não necessariamente ligado à vida do universitário, porém, condizente a um universo bem diferente, com uma embalagem formal mais elaborada, sofisticada e embasada em linhas teóricas da técnica literária; e com profundidade remática no conteúdo de suas letras. Entanto, jamais teríamos, teoricamente, um gênero designado tão tolamente de “sertanejo universitário”, seria um paradoxo tão escancarado entre dois termos (sertão, universidade) que se contradizem com tanto acinte que esta inepta terminologia deve ser prontamente rechaçada por qualquer ser pensante. Mas, na prática, no Brasil, tudo foi bem diferente:
Repentinamente, o governo das cidades do litoral impõe sua civilização ao sertão, num só golpe, impiedoso. É um choque cultural a invasão de elementos estranhos e o convívio forçado com eles: promotores, delegados, leis, escolas. Do dia para a noite, acontece o que deveria ser paulatino consoante à escalada das aspirações de progresso do sertanejo. O resultado se vê, uma sociedade de falsas aparências, de falsos currículos. Hoje, a maioria tem condições de adquirir um aparelho de som de última geração para sua casa ou carro, mas o mais importante ainda não está em condições, que é saber ouvir música de qualidade; a maioria pode adquirir um excelente home theater, mas não tem formação para saber escolher um bom filme. É um desperdício de tecnologia nas mãos de quem não precisa. Por fora, a aparência está ótima, por dentro, a essência, uma joça. Os bares continuam cada vez mais cheios, mas os homens que ali estão, estão cada vez mais vazios.
Ao longo de sua História, o Brasil perde oportunidade após oportunidade de reformular seu sistema educacional, não enxerga que grandes países são estruturados em uma educação sólida, e que a ausência dela leva um país à ruína. Com uma economia de tradição extrativista, escravocrata e latifundiária, nunca se pensava em mão de obra qualificada. Agora, o país joga fora o futuro não percebendo que bate à porta um novo tempo em que só sobreviverá uma economia de mão de obra competente. Tempo que exige qualificação não só dos produtores de tecnologia, mas também de seus consumidores. Além disso, um país desqualificado em educação é presa fácil para vorazes megacorporações poluidoras e famintas por recursos naturais, elas chegam engambelando facilmente os inocentes moradores com o brilho de seus neologismos estrangeiros.
As falsas estatísticas são velhacarias que sempre deram ao governo argumentos para construir escolas e para usá-los como moeda de barganha na compra de votos, ou seja, o governo não faz escolas para o aluno, sim para o empreiteiro. Na década de 40, Teixeira de Freitas, fundador do IBGE, foi o primeiro a sugerir ao governo que não investisse na construção de novas escolas, e sim que melhorasse as que já existiam. Foi demitido.
Claro que o governo sempre foi obediente a uma elite mundial que o governa, já dizia um velho Rockefeller, representante desta elite, que “não queremos uma nação de pensadores”, daí a criação de uma escola que emburrece o homem, que forma o homem para aceitar o governo, forma o homem que aprende sobre computadores, leis, remédios, mas que não adquire uma cultura clássica que lhe permita angariar conhecimentos de todos os matizes da sociedade para poder concatená-los e conceber uma opinião inteligente sobre o que realmente acontece e que é de seu interesse. Esta tática, adquiriu mais eficácia ao ser aliada impiedosamente à televisão que, com seu futebol, sua xuxa e suas novelas, deixa este homem seguir seu caminho preocupado apenas com quem matou Odete Roitman. Mas, quando o ministro de Fernando Henrique compareceu à tv, às vésperas da eleição, e confessou não ter escrúpulos, FHC foi eleito no primeiro turno, porque o homem formado nesta escola não sabia o significado da palavra “escrúpulo”.
Até parece sério, mas é tudo enganação: para sustentar falsas estatísticas diante de órgãos internacionais, o governo abole a reprovação e, não satisfeito, rouba no jogo ao chegar ao cúmulo de subornar, quer dizer, de dar dinheiro ao aluno para que este frequente a escola. Diante disto tudo, o professor perde, em face do aluno, a moral e o moral. Salas ficam descontroladas, sem nenhum freio. Alunos chegam a ganhar nota só pelo fato de “ter caderno”! Não há mais a áurea de respeito, temor e admiração do aluno ao professor. Mesmo em pacatas cidades como Passos ou Furnas, professores e diretores viram reféns dos alunos, são compelidos a pedir licença de meses longe do trabalho, pois não podem ir, por medo de ameaças, à escola, e muitas vezes, não podem sair de sua própria casa, onde fica preso, pois na rua, à sorrelfa, está o aluno de tocaia.
No Japão, todos, na rua, inclinam-se silenciosamente diante da passagem de um professor. No Brasil, a violência tornou-se trivial, sua proliferação não discrimina a rua da escola, provando que, mesmo dentre os chamados de estudantes, não há mais valores naturais de coerção, assim, o aluno, como o bandido, tem sua própria decisão privada, julga o que é justo ou injusto e, nestes tempos que exacerba a aridez de sentimentos, a corrupção dos valores civilizados e a falta de humanidade, pratica a violência com a consciência em paz. O aluno, ainda um valentão sertanejo, inserido no âmbito de uma universidade, onde não deveria sequer levantar a voz para um professor, levanta a mão e dá-lhe tantas facadas no peito e pescoço.
O professor não precisa de segurança como agora se fala, não precisa de paliativos que resolva a aparência externa, precisa de algo que solucione a essência interna. Precisa só de um ambiente de estudo. Num ambiente de estudo há estudantes, não bandidos. Segurança é para onde há bandidos.
Realizar um TCC não é para qualquer um, mas o baderneiro, e também agora assassino, Amílton Loyola Caires acha que sim, e quer provar isto na faca. Seu advogado vai livrá-lo da cadeia provando que ele é um esquizofrênico com transtorno bipolar, contudo, na ocasião de ingressar na faculdade ele não era nada disso, ou melhor, era, porém o governo só leva em conta as falsas estatísticas, portanto, outros piores que Amílton podem ficar à vontade e ir até mais longe.
A primeira morte de um professor por um aluno há muito já estava anunciada, era bola cantada, macuco no embornal, entretanto o governo virou a face para o fato evidente. Diante do cadáver de Kássio Vinícius (pai de dois filhos), algo será feito ou vão esperar pelo próximo?